BIOGRAFIA
Cada um de nós um dia vai parar e pensar em sua própria biografia e descobrir coisas maravilhosas. Principalmente quando perceber que, a nossa história de vida inicia-se na biografia de nossos pais, muito antes da nossa vinda ao mundo. E nossa biografia conecta-se com a história de outras pessoas que nos podem ser estranhas hoje, mas que foram muito importantes em nosso primeiro momento no mundo.
A primeira pessoa a quem fomos apresentados durante o nosso nascimento, a pessoa que nos auxiliou a iniciar a vida, durante o parto. Ele estava lá para nos apresentar à humanidade. Na realidade, ele era, naquele momento, para nós o representante de toda humanidade a quem iríamos nos integrar. Possivelmente foi escolhido por nossos pais, pelos mais variados motivos, mas dessa escolha, resulta o elo entre a biografia desta pessoa e a nossa.
Seus gestos e sua voz formaram as nossas primeiras sensações na vida. De como ele conduziu o processo de parto de nossa mamãe e papai, resultou para nós em uma boa ou má chegada ao mundo. Da forma com que ele nos pegou pela primeira vez ao nascer, o que nos disse, em que tom de voz, como nos mostrou para a mamãe, tivemos nossas primeiras sensações, boas ou ruins. Neste momento a gente não tem muita consciência, mas a avalanche de sensações deve ser enorme. E quem era este terráqueo que nos recebeu no planeta Terra? Por que ele estava ali, comigo no momento em que eu aterrrisava?
Pensando nisto e porque eu sou o terráqueo número um de aproximadamente 2500 outros pequenos terráqueos e terráqueas como você, quero lhes apresentar a minha biografia e a do médico que foi o meu terráqueo parteiro. Espero que lhe seja útil para algo, mas se não o for ao menos você saberá um pouquinho de seu Tio Cegonha.
Minha biografia é bastante simples e fácil de ser relatada. Nasci no Brasil, numa pequena vila de imigrantes judeus do Rio Grande do Sul, chamada Quatro Irmãos. Se quiser achá-la no mapa, não a procure por este nome. Em muitos mapas ela já desapareceu. Procure por Erechim, que é a cidade mais próxima de onde se localizava Quatro Irmãos. Nasci com a ajuda e pelas mãos santas do Dr. Otto Goldberg. O Dr. Otto Goldberg, era um médico formado na Alemanha e que veio para o Brasil para trabalhar junto a esta comunidade de imigrantes judeus.
Sei algumas coisas da história de meu parto, pois minha mãe a repetiu para mim uma dezena de vezes, cada vez com uma versão nova. Eu seria o quarto filho de uma mulher que teve todos seus três partos anteriores, muito difíceis. Ela era uma mulher de corpo frágil e que sofrera muito para dar a luz aos seus primeiros filhos. Seria muito arriscada nova gestação e parto. De tal forma que, quando minha mãe, Dona Luiza Bacaltchuk engravidou, o Dr. Otto Goldberg, segundo suas palavras, ficou muito bravo e preocupado. Por ser um médico que ainda não legalizara seu diploma no Brasil, não podia fazer cirurgias no seu pequeno hospital de paredes de madeira, precário em suas instalações e quase sem funcionários preparados.
O que o dr. Goldberg conseguia fazer por sua pequena comunidade eram atendimentos clínicos. Cirurgias, raríssimas. Mesmo porque imagino que uma cesariana em um hospital de Quatro Irmãos não era uma cirurgia simples de ser feita, pois Dr.Otto trabalhava sozinho na cidade. Não haviam outros médicos para fazer a anestesia, nem para auxiliar ao cirurgião. Quando a emergência não podia ser encaminhada e ele tinha que operar uma apendicite por exemplo, um caboclo que ele havia treinado, ou o açougueiro da cidade o assistiam. A sala de cirurgias era a mesma para todas as cirurgias. Infectadas ou não. Alias, antibióticos naquela época, só a Penicilina e que por ser muito impura, dava mais choques anafiláticos (reação alérgica gravíssima de ser tratada naquelas condições) do que proteção. Anestesia, só com éter, dada em uma máscara que era aplicada pelo próprio médico enquanto operava.
Portanto a gravidez de Dona Luiza foi carregada de muitas espectativas catastrofísticas. Dr. Otto pedia para que ela fosse dar a luz em uma cidade com mais recursos. Meu pai, o Sr. Bernardo Berenstein era um homem que viajava muito. Pouco ficava em Quatro Irmãos pois ele era madeireiro, e madeira naquela região do Rio Grande do Sul, já não havia mais. A região já tinha sido barbaramente explorada por madeireiras dos primeiros imigrantes que vieram para aquela região a partir de 1910. Na década de 50, época em que fui gerado, meu pai explorava madeiras em Santa Catarina, numa remota e escondidissima vila chamada de Gramas, município de Ponte Serrada. Ele viajava para a serraria e lá ficava por um ou dois meses, enquanto minha mãe cuidava de uma loja de "secos e molhados".
Você, meu caro não deve saber muito bem o que é uma loja de "secos e molhados". Hoje esta divisão não existe mais. Loja de "secos e molhados" é uma loja que vendia de tudo. Roupas, ferramentas, sapatos ou seja "os secos", mas também vendia comidas, bebidas, "os molhados".
Segundo a minha mãe, ela não poderia deixar a lojinha com ninguém para ir ter seu quarto filho longe dali. Daria a luz com o Dr. Otto e fosse o que Deus quisesse. Assim, quando ela entrou no nono mês, meu pai não viajou para ficar na lojinha enquanto ela desse a luz.
A AJUDA DE DEUS, EL AZOR, O MEU NASCER E MINHA PROFISSÃO
Quando minha mãe entrou em trabalho de parto, Dr. Otto internou-a em um quarto que era próximo de sua sala de consultas. Dona Herna, sua esposa e enfermeira, cuidava de minha mãe enquanto ele atendia as consultas do povo, que vinha de áreas próximas de Quatro Irmãos. Minha mãe ficou em trabalho de parto por dois dias. Isto quer dizer que ela tinha contrações de seu útero para que eu nascesse, a cada 5 minutos e por um dia e uma noite inteira se esperava que ocorresse a dilatação do colo do útero e eu nascesse. Mas eu não nascia. Meu pai vinha algumas vezes por dia, visitá-la, nervoso, angustiado e fumando. Fumando muito. Cigarros Continental, sem filtro como era comum na época. Vez por outra questionava o Dr. sobre a solução do caso e alguma coisa para aliviar o sofrimento de minha mãe. Dr. Otto lhe explicava dos riscos da cesárea, de seu impedimento legal e fumavam juntos, como se o cigarro pudesse lhes aliviar a angústia. Não que o Dr. Otto fosse um fumante como o meu pai, mas numa tensão como aquela, o outro fumando com gestos dramáticos enquanto se entreolhavam, ele também aliviava sua ausência de palavras com a fumaça do cigarro.
Na madrugada do segundo dia minha mãe começou a ter uma hemorragia. Eu já não mexia mais e o sofrimento começava a tomar ares de tragédia. Dr. Otto entre uma tragada e outra, falou a meu pai que seria necessário fazer um parto a fórceps alto. Isto significaria muito risco. Mas que era preciso escolher naquela hora. Pela hemorragia poderia minha mãe morrer. Por sua fraqueza e o prolongado trabalho de parto, ela já não tinha mais forcas para expulsar o bebê. Pelo tempo em que se estava tentando e porque minha cabecinha estava alta na pelve, ele teria de colocar as colheres do fórceps, apreender a cabeça e puxar-me para que eu nascesse. Mas este procedimento era muito difícil, porque a hemorragia poderia agravar-se e seria necessário fazer uma cesariana para salvar, pelo menos a mãe. Ou seja, ou a mãe ou a criança. Se é que ela ainda teria alguma chance. E meu pai deveria decidir. Dr. Otto não queria assumir uma decisão tão difícil sozinho. Fumaram mais um Continental, desta vez mais demorado, mais grave. Meu pai devolveu ao médico uma resposta que só sai nesta hora, do fundo da alma. Que ele fizesse o melhor possível, Com a Ajuda de D us. El (Deus em hebraico), iria dar o seu Azor, a sua ajuda, naquela hora.
Na madrugada de 7 de janeiro de 1952, o Dr. Otto Goldberg convocou a sua "equipe" e iniciou o parto tentando primeiro pelo fórceps. Se não houvesse a descida do bebê pela estreita pelve ele faria uma cesareana. Para isso todos deveriam estar por perto, pois não havia telefones, bip, celulares. Nem mesmo oxigênio no hospital não havia. O "balão" já fora totalmente usado. Ou seja, se a mãe ou o bebê necessitassem de oxigênio, se rezaria. Detalhe, também não havia banco de sangue para se tentar uma tranfusão, caso a hemorragia aumentasse. Se fosse preciso fazer uma transfusão, se rezaria. Também não contávamos com um pediatra na sala para atender-me. Seria o Dr. Otto para anestesiar, fazer o fórceps e, se o bebê nascesse mal, também seria o Dr. Otto quem deveria dar o socorro. Ou rezar.
Quando nasci, não chorei imediatamente. Só respirei, após os banhos de água fria e água quente (para dar-me um choque térmico), único estimulo que Dona Herta sabia fazer para reanimar a criança. No início chorei fraco, mas o suficiente para que meu pai ouvisse lá fora e pudesse parar de acender um Continental no outro. Nascera o Eliezer, com a Ajuda de D us. Mas pelas mãos do Dr. Otto. Creio que hoje eu me auto chamaria, Ottos Hands.
Minha infância naquela Quatro Irmãos, cidadezinha de 2.000 habitantes, no interior do Rio Grande, passou-se tão rapidamente que tenho pouquíssima lembrança de quaisquer fatos importantes. Até os 8 anos eu ficava com minha mãe na loja, comia rapaduras, gazozas e mandolates e ficava feliz quando o Dr. Otto passava na lojinha de secos e molhados, olhava para a minha mãe, feliz e saudável, pegava um pacote de cigarros Continental, não pagava e dizia que dona Luiza e aquele seu piazinho, o Eliezer, lhe deviam cigarros Continental pelo resto de sua vida.

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